Sonho Tailandês

Estávamos numa loja de souvenirs.

Começou comigo a olhar para ti por entre um expositor cheio de dragões coloridos em miniatura e barcos tradicionais de pesca que o são num rio com um nome exótico e igualmente estranho. Os olhares cruzam-se na mesma frequência, e, sem falares, vejo-te morta de aborrecimento por pastarmos naquele ninho com cheiro a plástico e madeira envernizada.

Mea culpa porque o sonho é meu.

Tu sais, eu vou atrás. Abraças-me e já estamos numa praia cheia de areia fina como açúcar. Tudo é turquesa, branco e verde. Olhas e consigo imaginar pelo sorriso que dizes em silêncio, “vamos”.

Sem tripulante, emerge um nenúfar, e tu, impressionada, sobes com receios de equilíbrio, zarpando assustada por águas que inventei para nos molharmos. Rebentou um fogo de artificio em plena luz do dia que anunciava as partidas. Eu, amedrontado, mergulho nas água e tento num fôlego alcançar-vos. Não consegui.

Esfrego os olhos e acordo sozinho e encharcado no que parecia uma estação de Metro.

Pela imensa parede, um peixe-gato dourado com um nenúfar na boca nadava em azulejos espelhados. Corri a eternidade desse mural e descobri umas escadas cheias de musgo; linhas de água venciam o betão degrau a degrau até que eu também os venço terminando a subida. Saí para um jardim de ruibarbos e chorões, vergados sobre um ribeiro que segue para uma luz tão intensa que cega olhar o horizonte.

Fui cego até ficar rodeado por pessoas que não dão pela minha presença e devolvem-me a vista. Começa a cheirar a camarão frito e entro num “tasco tailandês”. Carnes assadas na brasa, montras com produtos vegetais e especiarias que formam o que poderia ser uma loja de gomas. Sento-me e não sei como pedir o que quero na língua deles.

Inventem nos sonhos o tailandês escrito e inventem-no sem que se perceba o que significa camarão. Escolhi à sorte e acertei. Daí a nada estava num final de tarde, regado a pôr do Sol.

Sentas-te na mesa vinda do nada. Sentas-te na mesa e o que eu tinha pedido era para dois, só faltavas tu. Chegas toda encharcada e a rir. Chegas a adorar o centro de mesa que é um nenúfar.

Dizes que parece um sonho estarmos de férias na Tailândia. Eu sei que é.

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