Quando o sangue se mistura

Na escola, quando se falava em pesca, em frio, água salgada, vento a secar a pele, correntes e as fases da lua, ninguém o entendia e assim era especial.

Sentados na borda do barco do pai numa fria noite de Novembro, mãos petrificadas e ambos agasalhados em suores quentes, arrepiados de frio mal o vento se infiltrava por entre as malhas de lã e vencia, uma a uma, cada camada de roupa; era cedo, a faina ia a meio e não valia a pena pensar no chuveiro quente, nem na cama, nem no comer da mãe. Tinha a sabedoria do seu velho ao leme, dando as vozes de comando, o incentivo para que a alma não ceda ao corpo:

– Continua! Não pares que o frio não perdoa. Abana os braços quando o frio te ocupar, abre e fecha as mãos com força e evita lavá-las na água. Suja-te!

O imberbe picava-se amiúde ao desemalhar a rede. O sangue do peixe era o seu sangue e os dois juntos confundiam-se não havendo quem os conseguisse distinguir. Indiferenciável.

As horas passavam e o barco cada vez mais cheio de peixes airados numa malha que os prendera para sempre à tumba mascarada de barco.

A corda que se liga ao motor foi puxada e deu-se vida ao que era mecânico e lhes permitia cavalgar para casa. O ar dilacerante na ausência do Sol, amaciava o horizonte num lilás e azul com pontas aqui e ali de laranja, como a chama a gás butano do esquentador que aquece a água do banho.

A fome enganada pela vontade e alimentada pela privação e, gritou bem alto o mestre na poupa para vencer o barulho da hélice que rodava na água. As palavras do velho eram leis por cima de água. Boiavam como a cortiça à tona, visíveis, deixando as dúvidas como o chumbo, bem lá no fundo.

– Não há fome que não dê em fartura! – Gritava o pai a rir da inocência alheia.

O miúdo pensava construir o Homem a partir dessa frase. Eram essas intensidades e meditações que o tornavam cada vez mais denso e espiritual. Brotava em alto mar a percepção que a vida é coisa para custar. Viver dá trabalho e só a sorte não chega.

Faltava chegar a terra, gelar o peixe, compor as caixas, pesá-las uma a uma e ir para venda. Não fazia mal, dava tudo para ajudar o pai, aceitava tudo por amor aos seus, dedicava-se como um cavaleiro luta por causas perdidas ou por conquistas improváveis.

Chegado a casa, tomava um banho quente e depois, mergulhava a sede num galão bem escuro, devorando torradas douradas e cheias de manteiga que a sua mãe havia preparado mesmo antes de sair de casa para o trabalho. Beijo na testa e uma porta que se fecha.

Deitava-se na cama sem tempo para fazer balanços sobre isto ou sobre aquilo. Dormia fundo com o cansaço a dar forma ao colchão por sonhos de esperança. Imaginava o sangue dos peixes a correrem nas suas veias.

Acordava sempre a sorrir. Os seus amigos acham que as suas histórias dos sete mares são aborrecidas. Talvez um dia venham a perceber o que é vencer sacrifícios da pior maneira. Deus queira que não.

Aprendia dia após dia que o prazer da vida está nas coisas simples. Sentir o frio no corpo era perceber o que é uma cama de lavado e um cobertor de Inverno.

Valiosamente simples.

2 responses to “Quando o sangue se mistura

  1. bons tempos que nos ajudaram a crescer.tanto fisica como psicologicamente.gostei muito destes tempos mas estou a adorarer o teu tempo presente.abraço cheio de mar

  2. Sem dúvida, aprende-se a pescar para lá dos peixes naquele barco…
    Nunca aborrecidas as histórias dos sete mares… só para amigos vendados pela vida…

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