a fome

Na noite do dia 3 de Dezembro decidi ir à varanda apanhar ar e ver a cidade iluminada. Pairava uma linha de nuvens que se tornavam avermelhadas à medida que iam baixando.  Aquele cenário fazia-me acreditar na existência de vampiros e outras criaturas noctívagas. Estava só a exercitar a imaginação.

Eis que, surge um jovem numa esquina sem candeeiro e pára junto ao caixote do lixo. Utilizou a luz do ecrã do seu telemóvel para melhor vasculhar o que sobrou. Comeu.

Fiquei bloqueado. Era um rapaz que costuma frequentar o mesmo café do bairro. Já o vi um par de vezes.

No outro dia levantei-me com aquela imagem na cabeça e saí para beber um café. Lá estava ele, com a mesma roupa do dia anterior, um olhar perdido, um indigente.

Teria dormido sequer? Contive o choro e apetecia-me dar-lhe um abraço e ajudar no que pudesse. Ele não dava tempo e não denunciava precisar de ajuda.  Eu já sabia que era mentira.

Meteu conversa comigo e com toda a esplanada. Falou sobre futebol e desemprego. O telefone tocou, atendeu a chamada e saiu a correr.

Onde um vê lixo, outro encontra comida. Eu tenho pouco mas posso ajudar.

caixote-do-lixo-2

 

caixote-do-lixo

5 responses to “a fome

  1. Essa esquina escura que escreves, existe hoje em todas as cidades do nosso país.
    É nosso papel denunciá-la pela luz.
    Bem

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