A sorte e a sina

Nesse dia encontrei o que procurava, um banco de jardim com o Sol a bater pelas costas para reler “Um Eremita em Paris” do meu amigo Italo Calvino. Sabia poder reencontrar bons conselhos, passeei por umas trinta páginas, entremeando pausas para contemplar os patos a nadar no lago, o som das folhas a dançar numa brisa calma, amena, e um cisne com o pescoço esticado e as assas abertas como os painéis solares à procura de roubar o calor do Sol que nos unia a todos. A claridade sincera dos dias limpos.

Eu, de pernas cruzadas e o livro ao colo. Ela chegou e parou à minha frente. Dei com uma camisa de gola alta de malha rosa choque, fazendo contraste com a natureza verde e amarela, fui subindo o olhar até estabelecermos contacto visual. Eu e uma cigana.

Olhos esmeralda, daqueles para ver no escuro, lábios finos numa cara redonda e sadia, talvez uns quarenta anos de idade. O nariz? Pequeno e arrebitado, parecia apontar para uma testa cravejada de rugas de expressão.

Demorou o seu tempo a estudar-me e disse:

– Menino, vou ler-te a sina? Sinto muita força! –  afirmou a cigana com amabilidade.

– Desculpe Minha Senhora, não me leve a mal, eu não acredito nessas coisas e quero mesmo muito ler este livro, se não se importa, eu não estou interessado.

– Acredita que é verdade! E assim também me dás uma ajudinha. – insistiu assertivamente. Nesse momento, quase instintivamente, tive uma ideia para deixar bem clara a minha posição.

– Muito bem, – assenti – então façamos uma troca. Você lê-me a sina e eu dou-lhe a chave do Euromilhões de Sexta-Feira. É justo.

– Aí menino, a sorte não se adivinha mas a vida está escrita! – Ao dizer isto colocou as mãos na cabeça e desceu-as lentamente percorrendo ombros e tronco, até repousá-las na cintura para me olhar ainda mais segura, ignorando por completo a proposta.

Sentiu que eu lhe ia dar luta e, por ventura, uma moeda. Foi o suficiente para se sentar e pedir-me a palma da mão direita, (fiquei a saber posteriormente que na direita vive o destino e na esquerda o livre arbítrio) e começou:

– Vejo duas pessoas que invejam a tua relação, – só? pensei eu –  vais ter três filhos e a tua mulher vai chamar-se Fátima! Vejo muita saúde.

Tirando a saúde, as premonições deixaram-me preocupado: três filhos com a crise seria muito arriscado, mas, bem pior que isso, passei em revista todas as Fátimas que conhecia e umas, ou tinhas mais de 60 anos, ou apareciam a pastorinhos, a três ainda por cima! Coincidência. Parei para ouvir mais um pouco de porvir.

– Vejo queda para o negócio, uma casa com piscina, muito grande, com muita gente. – A cigana calculou que eu era filiado em algum partido politico, mas não. Continuou com feitiços que abalavam as fundações do meu cepticismo.

Eu não tinha que pagar a sua excelente companhia e criatividade; creio que ela, perdão, ela tinha nome e Assunção era a sua graça, foi-se desarmando aos poucos e desatámos a conversar sem promessas ou pagamentos.

Falámos sobre a origem da roupa contrafeita que vendia junto ao Mercado Municipal, pediu segredo, confessou que adora fazer longas viagens de carroça em família pelo Sul de Portugal e Espanha, até Huelva disse-me sorridente. Achava piada ao nome dos cavalos que os puxavam, o Paco e a Bet, e ao facto da carroça ter a marca de um carro que tem uma estrelinha com três pontas, percebi tratar-se de uma Mercedes com dois cavalos.

A tarde tornava-se macia e continuava solarenga. Eu já sentia estar no jardim com uma amiga. Continuou a falar cheia de alegria e ilusão, feliz por falar com “um branco”. Tentou ensinar-me algumas palavras na língua cigana, o Calé.

Assunção fitou o lago longamente, talvez tenha decidido parar o discurso para respirar de tanto falar, dar saliva à boca seca e combustível à sua grande alma que aos poucos se ia revelando. Tão humana depois de deixar cair o disfarce da sina.

Manteve as pernas juntas com a saia a roçar a gravilha que compunha o caminho do lago até ao banco onde existíamos.

Não ficámos sem assunto, aceitámos um longo silêncio que por fim nos preencheu.

Decidi regressar a casa para escrever este post, não sem antes deixar um desafio à minha Assunção. Sugeri que jogasse no Euromilhões do seguinte modo: ofereci-lhe uma caneta para que anotasse na palma da mão a matricula dos carros  que ficassem junto a uma Casa da Sorte e compor assim a chave para o seu boletim. Partilhei uma das minhas poucas superstições. Assunção sorriu com o olhar esmeralda que só ela e os gatos pretos ostentam cheios de orgulho e raridade.

Espero que a minha sina e a sorte de Assunção possam um dia coexistir em paz.

A vida não se joga ou lê. A vida vive-se e vai-se escrevendo ela própria.

sorte-e-sina

9 responses to “A sorte e a sina

  1. Um livro de contos: começo por “Pepe e Lupe”, folheio até ao “Espião que nunca o foi” e passo pela “A sorte e a sina”… Adoro ler os teus textos!

  2. Johnny… Muitas são as palavras, mas só me estou a lembrar de uma mano: Brutal!
    “…o calor do Sol que nos unia a todos.”
    As descrições e as tuas observações são deveras cativantes. Mais uma vez te dou os parabéns e peço, pelo bem de toda a humanidade que continues o bom trabalho! Abraço

    • Oi Vânia,

      seja bem-vinda ao Apontabem. Quero antes de mais agradecer a sua atenção e convidá-la a descobrir outros textos.

      Conto com o seus comentários e fez muito bem o colocar o seu link.

      Muito obrigada.

      • Adoro seu trabalho, fotos e textos do jeito que eu gosto.
        Seja bem vindo para visitar meu espaço.
        Gratidão e boa sorte.

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