Na praia

Mesmo sendo Janeiro, faço questão de caminhar descalço para sentir a textura da areia fina e torrada, ora seca, ora molhada, conservando por vezes poças de água na superfície lisa, como os espelhos fazem, reflectindo o azul do céu num plano horizontal que, visto do Espaço, se torna redondo e gira sobre si próprio.

E nós aqui na praia.

Dois amigos franceses de meia idade: um dá tacadas numa bola de golfe com um club a estrear, o outro acompanha o vaivém da bola que sobe e desce a inclinação do areal – o mar esculpi-o assim na maré cheia que vazou.

Maresia é perfume sem cópia possível. O mar vem enrolado em ondas como as do nosso ADN.

No dia anterior, com ondas em quantidade, em forma e dimensão suficientes para regozijar os presentes, eram sem exagero uns 50 pontinhos negros na água, lá mais ao fundo a disputarem a sua vez para viajar surfando. Hoje, sem ondas, a baixa maré sente-se invadida por gente de todas as idades, género, credo, tentando encontrar o ninho das conquilhas. Peneiram e remexem a areia de uma ponta à outra metodicamente e, quando descobrem uma zona fértil em bivalves, permanecem no mesmo sítio a observar, simultaneamente, a abundância da descoberta e a curiosidade dos vizinhos. Qualquer suspeita pode criar uma enchente de curiosos e inveja.

É maravilhoso observar as suas movimentações migratórias.

E os jovens? Tantos. Entre os 25 e os 30 anos, patrulham o areal em passo acelerado ou em corrida, uns para cuidar do físico, outros em busca da alma perdida algures entre um Presente sem destino e um Futuro mais próximo do Presente.

Com mais ou menos força, eles irradiam vontade nos olhares em riste, em esperança, criam planos e traçam metas. Uns imaginam Lisboa depois de 2015, outros recordam os verbos irregulares na língua inglesa e pensam em Londres ou Sydney facilmente. Os mais corajosos aprendem a distinguir der, die, das em voz baixa.

A praia também tem idosos. Passaram pelo seu tempo e agora arrastam-se pelo nosso mais devagar. Seguram as canas com mestria sabendo escolher o peixe que está dentro de água. Parece que os chamam nos assobios do chumbo e linha que cortam o vento nos lançamentos já iscados.  Sabem tudo o que se passa na praia, muito melhor que eu conhecem: o pontão, o molhe, o faroleiro, os bifes e bifas, o areal e os arredores. Já nem ligam a quem passa e admira os peixes vivos a lutarem contra a morte num balde cheio de escamas secas de pescarias passadas. Troféus de praia. Eleições ganhas.

As gaivotas pintam o chão de branco no pontão e, quando sobrevoam a multidão em grande número, dão ares de bombardeiros que criam o pânico nas pessoas que trouxeram roupa mais escura.

Agora que saímos do pontão, novamente em direcção ao areal, reparamos que o recuo da maré ganha a consistência do asfalto, é por isso normal ver bicicletas e carrinhos de bebé a criarem linhas que se cruzam como as gerações presentes na praia.

O chão fica cravado de texturas zebradas, ziguezagueando aleatoriamente até à zona onde o mar rebenta, transformando a espuma branca e salgada em algodão doce.

Para terminar.

Para as centenas de milhares de pessoas recém-partidas do nosso país, para outros milhões de refugiados em território nacional, para todos os meus compatriotas: levem na lembrança a nossa praia e regressem a tempo com esperança.

Neste jardim à beira-mar plantado. Portugal.


10 responses to “Na praia

  1. Sempre teve a sua espiritualidade, o mar. E sei que em ti provoca um sentimento talvez ainda mais profundo. Adorei ler as “rugas” da tua praia. Abraço primo.

  2. Pingback: Retornados à praia | Aponta bem.·

  3. Um texto muito poético…aqui no Brasil, janeiro é o exato de mês de nos banharmos nos mares, alta temporada!
    Se estivesse aqui, provável que seu texto tivesse uma cadência frenética!:)

  4. Tens de ver os meus barquinhos… depois de ler mais umas coisas por aqui, vou-te mandar, pareçem ter sido feitos para essa (tua) praia.

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