Cemitério dos Barcos, Parte I

Texto dividido em 6 partes.

O tempo e as suas partituras, os segundos, minutos, horas e milénios, compõe esta história como os puzzles, revelando peça após peça uma arte que vai sendo perdida ao ponto do Homem cometer vezes sem conta os mesmos erros, transformando a imagem que vinha na caixa e propunha a composição de um veleiro majestoso num pedaço de madeira a duas dimensões, esquecida e abandonada como outra coisa qualquer que tenha alguma vez existido. O Cemitério dos Barcos.

Sempre que passava de bicicleta a ponte velha de Portimão para Ferragudo, contemplava um barco velho e em seco, virado ao contrário lá ao fundo junto ao estaleiro, onde acabavam as lajes maciças e aparecia timidamente o lodo verde escuro da foz do rio Arade que conduzia a água e as embarcações de volta ao destino mediterrânico.

Um dia, farto da distância que os separava, o rapaz encontrou um buraco na vedação que poupar-lhe-ia uns 10 minutos de pedaladas esbaforidas até ao pórtico que dá acesso à entrada para a Docapesca. Com coragem, convinha não dar nas vistas pois tratava-se de área reservada a pessoas autorizadas. Ele era só um rapaz curioso e não esperava pelo dia de passar e ver escrito: área reservada a pessoas curiosas. Foi.

Já junto ao barco, percorrendo radiograficamente fendas e brechas, observou calmamente uma a uma as imperfeições das tábuas que soltaram pregos, como a terra deixa nascer cogumelos em sítios húmidos, a ferrugem ocre disposta em crostas que se desprendiam para o chão criando um contorno, uma auréola que consagra a velhice dos metais. Acompanhou a movimentação do caruncho que comia o barco e fez-se todo o tipo de suposições para juntar, peça a peça, que tipo de arte praticara o mestre da embarcação e qual a razão para um estado tão avançado de putrefacção que conferia ao barco a beleza das estátuas clássicas de imagens sem braços nem cabeça.

Não ia chegar lá sozinho, precisava de ajuda e assim decidiu misturar-se com a comunidade piscatória de Ferragudo. A sabedoria de uns e a mentira de outros ser-lhe-iam difíceis de ajuizar, mas que importa isso quando se faz o que se gosta? Ajuizar uma aventura? Não procurava verdades absolutas, deixava isso para as revistas e documentários de ciência que devorava, só queria conhecer os homens do mar e um pouco do rasto na História.

Avistou uma roulotte no exterior do recinto junto à estrada. Saiu com a bicicleta pelo buraco na vedação e pedalou até ao cubículo. Como era cedo quis ficar-se por um chá de camomila, fez o pedido que foi recebido com um olhar de reprovação e escárnio por um homem com um gorro dos Chicago Bulls com manchas de salitre e uma sweat com um logótipo familiar mas uma assinatura cómica, Abibas. O homem apontou para umas latas de Ice Tea de limão sem dizer palavra; não, não bebo isso, pensou o rapaz, e se é para me enturmar, venha lá essa cerveja média e um rissol de camarão que o Sol já nasceu. Assim conquistou o seu espaço numa esplanada repleta de pescadores e operários da construção civil que reparavam um passeio sem calçada. Observou-os com cuidado e, por fim, depois de escrutinar o perfil de cada um, escolheu o mais tagarela para iniciar a sua busca, a viagem ao passado, quando o barco ainda era vivo.

– Desculpe, o senhor trabalha no porto? – perguntou o rapaz.

– Então não se vê logo que sim! Vou para o mar às dez e só volto amanhã as dez também, o mestre anda cheio de fé ou então é do vento Sueste que lhe bate na cabeça e fica todo marafado. – sorriu e procurou olhar em volta, tentando com isso perceber se alguém tinha ouvido o que acabara de dizer e concordaria sensatamente com um aceno de cabeça ou um piscar de olho que a sua vida não era brincadeira.

O jovem reconheceu que aquele fanfarrão dos sete mares poderia cultivar a sua idiossincrasia em relação ao barco morto no estaleiro e começou a puxar o fio do tempo. Eram nove horas e o pescador saía as dez para o mar, tinha portanto de economizar-se nas perguntas, injectando interrogações mortíferas.

– Você então conhece tudo o que se passa neste mar, já vi que sim. Acontece que há um barco de fundo ao ar junto à rampa do estaleiro que nenhum pescador me sabe dizer como é que ali foi parar. Você sabe alguma coisa?

– Qual? Um assim meio vermelho e branco? Cheio de ferrugem na poupa? Com a hélice cheia de rede de pesca e um olho preto já meio apagado na proa? Virado ao ar?

– Sim! Esse mesmo! – rejubilou o rapaz ao reconhecer na descrição o barco morto.

– Oh pá, esse barco é do Mestre Pequeno, ele passa os dias sentado nos bancos perto da Mexilhoeira da Carregação. Mas vem todas as Terças à tardinha ver o barco e o porto. O Mestre tem muitas histórias, foi um grande pescador, cheguei a trabalhar com ele, íamos às cavalas ao largo de Alvor. Grande homem. A história desse barco velho só ele é que sabe; nós íamos num outro mais novo, de fibra, que o velho já mandou abater quando a CEE dava dinheiro para não se trabalhar mais no mar. Foi o maior desgosto desse pobre diabo, viveu magoado depois disso e de outras coisas mais. O velho tem muitas histórias…

Já tinha a informação que procurava e assim regressou a casa e aguardou dois dias por Terça-Feira, não sem antes pagar mais uma rodada de médias ao seu mais recente amigo Carlos “Batalha”. Que ajuda preciosa.

Levou dois dias a imaginar como seria o Mestre Pequeno, mas amanhã, ao fim da tarde, vai na esperança de encontrar o arquivo vivo da sua curiosidade e ressuscitar as memórias no Cemitério dos Barcos. Amanhã já é Terça.

13 responses to “Cemitério dos Barcos, Parte I

    • Toda a história, de alguma maneira, pediu emprestada à ficção a própria realidade. Muitas pessoas tropeçam na imaginação das outras e descobrem que já estiveram muito próximas desses sítios. Como nos deja vu’s.

      Beijo

    • Olá Menina Luz, agora não que o nosso personagem está adormecido e o velho, segundo disse o Carlos “Batalha”, amanhã lá estará. Eu também faço votos para que se encontrem.

      Espero que corra tudo bem amanhã.

      Obrigado Luz

      • Olá homendoaponta, senti(mos)-te a falta… diz lá ao rapaz que tire umas fotos lindas para ir com a história, que eu tenho Ferragudo colado no coracao desde que de lá saí em ’82… e depois conta-me esse encontro bem contado!

  1. Todos nós pescadores temos muitas historias para contar.Mestre Pequeno nao será diferente. Aguardo calmamente por terça-feira. Para onde eu vou ainda a agua enche. Abraço cheio de mar

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