Cemitério dos Barcos, Parte II

Texto dividido em 6 partes.

O som do despertador resgata a consciência do rapaz para um dia que cresceu nublado e frio, levando-o ansioso até os ponteiros vencerem as quatro da tarde e um par de minutos, hora de pegar na bicicleta e escolher um sitio estratégico para estudar quem possa ser o velho ou esperar juntinho ao barco devoluto por alguém que se acerque, perguntando de mansinho se quem lá vem é o Mestre Pequeno.

Desculpe, é você o Mestre Pequeno? – frase repetida vezes sem conta enquanto ensaiava o esperado encontro pelo corredor de casa até à sala, vai e volta, terminando repetidamente junto à janela com vista para a Serra de Monchique onde respondia para si mesmo em voz alta forçando-a com rouquidão, – Sim, sou eu. – Hoje, assim o esperava, revelar-se-ão segredos que regeneram coisas amorfas e dão voz a homens que tratam a vida por Tu, certamente.

As memórias não são gravações fieis do passado, são relâmpagos que se tornam presentes e crescem à medida que nos vão querendo abandonar para sempre.

De caminho para o estaleiro parou na berma da estrada, a roulotte já tinha o encerado esticado pela ameaça da chuva que poderia chegar a qualquer momento. Levantou-se um vento que fez dançar pacotes de batatas fritas vazios e copos de cerveja descartáveis teimavam em colar-se aos pés das cadeiras com medo de voarem para habitats estranhos. Carlos “Batalha” não apareceu na roulotte para beber uma cerveja, e o negócio, por ser Terça-Feira de Carnaval, concentrava-se sobretudo nas grandes superfícies comercias onde todas as famílias passeavam dia após dia os mesmos disfarces. O rapaz colocou as rodas de volta ao asfalto e dirigiu-se para o buraco na vedação do outro lado da estrada que o levava por um carreirinho discreto de terra batida ladeado por vegetação densa para junto do barco morto no estaleiro.

Enquanto esperava sentado de pernas cruzadas, inspirou fundo para deixar entrar o odor típico das zonas de calafetagem: fibra de vidro, pincéis ressequidos com tinta seca e caramelizada, garrafas de diluente e aguarrás à solta, redes de pesca esquecidas, abafadas por mantas retesadas que prendiam cheiros agrestes a algas putrefactas. As pistolas de pressão, com o som típico dos geradores a gasolina, iam inocentemente poluindo o ar onde habitavam também gaivotas a disputarem o peixe jogado borda fora por um barco de pesca galego que encostara entretanto para descarregar.

A noite ia chegando, a desilusão aparecia nos arrepios do corpo mal agasalhado, na esperança hiperbolizada pela espera. Um fiasco. Farto de olhar à sua volta, só estavam pintores a dar tinta aos veleiros e pescadores na labuta, nada a fazer, hora de voltar para casa.

Como os guardas saíam um pouco mais cedo do serviço, deixando meia hora de intervalo entre a transgressão ao horário e a mudança de turno, sem ninguém na portaria, decidiu atravessar o estaleiro até à entrada e assim sair triunfante como um enfant terrible birrento. O caminho mais longo.

Saiu pelo pórtico contornando a cancela laranja e assim voltou à estrada e seguiu a toda a velocidade em contramão junto à berma. Vento contra, pedalou uma centena de metros, os carros iam apitando e fazendo sinais de luzes, alguns até baixavam os vidros vomitando impropérios. Olhou uma última vez por cima do ombro para o estaleiro que já tinha a iluminação artificial ligada. Um vulto, alguém acabado de chegar junto ao barco. Travou a fundo, deu meia volta e arrancou feroz. O frio cortava-o, a respiração era como a dos asmáticos, o vento dava-lhe nas costas o empurrão necessário para duplicar a velocidade – obrigado, pensou. O buraco na vedação estava perto, estava quase, era ali, entrou e pedalou, pedalou, venceu obstáculos, pouca luz por entre o mato, quase caiu e:

– Desculpe, é você o Mestre Pequeno? – disse ofegante depois de dominar as tonturas do esforço, quando o coração mora na garganta.

– Sim, sou eu.

9 responses to “Cemitério dos Barcos, Parte II

  1. Ah, bendita terça-feira de Carnaval! Ah, minha bendita vontade encontrar um resquício de “carnem levare” a toda esta festa carnal transmitida pela tv. Isto, meu amigo, fez com que eu perdesse o meu encontro com o teu texto, ou melhor, com os teus textos! Este aqui foi outro deleite e só não me deixou frustrada porque sei que já tem a terceira parte! Você não desaponta a minha curiosidade, que foi cultivada pela tua capacidade de escrever um texto com riqueza de detalhes. Parabéns.

    Até próximo texto.

    • Por vezes imagino as personagens das minhas histórias a chegarem até mim pelo seu próprio pé pedindo: – Então? É para nascer? Eu digo quase sempre que sim. Fico realizado por sentir que viajam na imaginação de outras pessoas e nesse momento deixam de ser minhas e passam a ser elas próprias, livres.

      Obrigado Valdemar.

Deixa o teu comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s