Cemitério dos Barcos, Parte III

Texto dividido em 6 partes.

O Mestre ficou surpreso com a aparição brusca e ofegante, sobretudo pelo som. O vapor da expiração quantificava o cansaço do rapaz turvando a visão do velho marinheiro. Assim parecia.

– Tenha calma homem! – sugeriu o Mestre – Respire fundo. Vá lá, faça comigo, inspira… expira… inspira… expira…

Foi o suficiente para abrir um largo sorriso na cara avermelhada do rapaz. Que recepção singela, carregada de espiritualidade e paz, mais preocupado em recuperar o fôlego dos outros; a vida ensinou-lhe que uma respiração descontrolada potencia disparates.

Depois de aceitar o conselho do velho Mestre, retirou da mala uma garrafa de água dando em seguida umas goladas que mataram a sede e acalmaram as cãibras num estômago vazio. Não esperou, a emoção era imensa e abrindo o coração foi direito ao assunto:

– Mestre, desculpe ter chegado assim desta maneira. Estive parte da tarde à sua espera mas você não aparecia. – continuou sem pausas, captando ainda mais a atenção que o velho dava à justificação – Fiquei a saber pelo “Batalha” que aquele barco velho era seu e quero muito compreender como é que tudo aconteceu, se é que aconteceu alguma coisa. Como é que aquele barco veio aqui parar? Peço-lhe, não leve a mal a minha curiosidade. Caso não sinta vontade de falar agora, posso encontrar-me consigo um dia destes?

– Oh homem! – abriu um sorriso solene moldado pela ruga que se vincou no canto da boca – Você tinha de nascer outra vez e eu tinha de começar a história quando você ainda era pequenino, – risos – este barco e eu somos como as moreias e as pedras, estamos sempre juntos. Com o frio que está não sei se me aguento mais de vinte minutos aqui e isso não chega para contar tudo como deve ser. Já jantou? Tem fome?

– Ainda não… – respondeu o rapaz com a clássica mentira dos esfaimados. Petrificou-se. O velho não o fixava olhos nos olhos. Imaginava o rapaz como se ele fosse um ponto fixo e perdido no espaço e ali ficou. Abrindo os botões do casaco de algodão amarelo com quadrículas brancas e azuis, sacou da sua bengala articulada para cegos e sentenciou:

– Vamos lá jantar primeiro e depois já se vê. A fome ou mata ou morre. Traga lá a bicicleta que há espaço que chegue no quintal. Vá, vamos que está frio e a companhia aquece a velhice. O “Batalha” esteve comigo a tarde toda e contou-me que o menino andava à minha procura de bicicleta. Um mais um são dois.

O rapaz ficou encantado com a serena assertividade do convite, desmontou a bicicleta e levou-a pela mão devagarinho para acompanhar o andamento do ancião. O Mestre estava cego.

O velho foi preparando o palato do rapaz a caminho de casa. O que os esperava eram uns carapaus alimados com batata doce cozida e salada de alface, e para beber, vinho tinto que um amigo lhe havia oferecido a semana passada, uma caixa de seis garrafas pela ocasião das oitenta e três velas sopradas pelo Mestre Pequeno. Vinho alentejano, Amareleja, dizia o velho que já havia provado antes, era um “derruba toureiros” cheio de corpo e muito áspero, aquecia noites frias e animava tardes quentes. Não tinha ouvido para a televisão, aborrecia-o acabou por confessar, preferia a rádio e a companhia do seu cãozinho, o Bobby; podia tê-lo baptizado Pantufa mas não, achou um nome muito vulgar e preferiu Bobby. Ele não morde, não tenha medo, foi a tempo de prevenir quando o rafeiro deu pela presença de um estranho junto ao portão e começou a ladrar. Chegaram a casa.

O Mestre Pequeno fazia jus à sua alcunha: pequeno e cada vez mais curvado pelo reumático, equilibrava-se num andar curto e pernas arqueadas, a cara cravada de sinais numa pele morena todo o ano. As rugas entrecortavam a cara revelando o muito Sol que enfrentou. O cabelo, com branco e cinza misturados, era forte como os nós de sisal e a calvície tocou de raspão na forma triangular das entradas. O olhar era bondoso e plácido, parecia estar lá longe onde os pássaros cantam e o mar rebenta em ciclos perfeitos.

– Esteja à sua vontade. Eu vou descascar as batatinhas e fazer a salada.

– Quer ajuda Mestre? – ofereceu o rapaz.

– Não, deixa estar. Aqui dentro o cego és tu. Olha, neste corredor em frente tens a sala. Se viras à esquerda tens outro corredor que vai direito à casa de banho. A cozinha não te vou dizer onde é por que já deves ter visto onde estás. – risadas – A salinha tem livros e música. Se não te importares, põe a tocar o terceiro cd que está num montinho por cima da aparelhagem. É Alfredo Marceneiro. Agora vai descansar enquanto apronto a mesa e faço o jantar.

Enquanto tocava “A Viela” do Mestre Marceneiro, o rapaz foi enfeitiçado pela decoração exótica da sala. Máscaras tribais, lanças , escudos coloridos a castanho, vermelho e laranja, bandeiras de Portugal e Angola, molduras de madeira com fotos a preto e branco das quais se repetiam imagens de uma lindíssima mulher com caracóis em cachos e um miúdo que foi amadurecendo a expressão até chegar a adulto na companhia do Mestre e da linda senhora que de certo seria sua mãe.

Não teve muito tempo para aspirar o cenário, por mais que olhasse havia outra coisa que chamava a sua atenção e o impedia de fazer o olhar seguinte que o hipnotizava outra vez e assim sucessivamente.

– Está na mesa! – gritou o Mestre do fundo do corredor. O eco levou o som e o cheiro a azeite e pimenta branca que temperava as batatas. Minutos depois deu-se o estalo que as rolhas fazem quando se despedem das garrafas.

Estava servido. Foram trocando opiniões sobre pesca, Portimão, até falaram sobre a pesca ao aparelho na apanha do peixe-espada em Sesimbra, concordaram que eram muito mal governados e só não falaram no barco velho. Havia tempo, o rapaz percebeu que o velho era comunicativo e sábio, estaria a guardar a história do barco para depois de jantar.

Pratos na bancada. Por ordem do Mestre lavava a loiça quem não tinha feito nada e assim o rapaz já estava entretido com a esponja e o liquido verde que abrilhanta a loiça. O Mestre sacou da bengala e disse ao rapaz que o esperava na sala. A lareira foi sendo acessa.

– Senta-te rapaz. Agora que o tecto nos guarda e o sofá nos aconchega já posso contar-te o que se passou com o barco. Mas para isso vamos viajar até Angola e estávamos em 1974 quando… – o rapaz fechou os olhos e os ouvidos fizeram o resto.

8 responses to “Cemitério dos Barcos, Parte III

  1. [e vai daí, a leitora sorri, aconchegada ela também. neva impiedosamente lá fora, mas ela tem encontro marcado com uma história de barcos e de mar, todos os dias, pelas seis da tarde…]
    :-)

  2. Não estou aqui a fazer comentários lisonjeiros sem embasamento algum, então se estou a dispensar elogios é porque, além de reais, são como uma forma de retribuir as emoções que se pode tirar de seus textos. Enquanto eu o lia ao som de A Viela de Alfredo Marceneiro (acabei por escutar outras também), eu fui aquele rapaz esbaforido que finalmente encontrou o mestre. Agora, ele está de olhos fechados a imaginar o que aconteceu em Angola (ANGOLA!!!!???). Por favor, não me deixe muito tempo na escuridão dos MEUS olhos fechados!

    Como dizem em MInas Gerais, inté a próxima.

    • A história parece ter acabado. Espero que tenha chegado até à parte VI. Conto com a sua sinceridade para ir melhorando. O Cemitério dos Barcos foi criado com espontaneidade e não pretende ter um aspecto acabado. As coisas que ficaram por partilhar não se esgotaram. Foi escrito com muito coração e pouco método mas com todo o prazer. A si que comentou e seguiu, Muito Obrigado!

      • Tardei, mas finalmente pude voltar para ler tranquilamente os teus maravilhosos textos. Veja bem, não estou propondo o desapego às formas técnicas, mas um texto capaz de fazer seus leitores SENTIREM seja lá o que estiver sendo proposto é o melhor (e isto não está diretamente relacionado a técnica!).

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