Cemitério dos Barcos, Parte IV

Texto dividido em 6 partes.

– Estávamos em 1974 quando regressei a Portugal – começou o Mestre, – mas para chegar a esse dia tenho de contar-te a história do barco. Aquele barco velho nasceu no estaleiro de um artista, o Mestre Jacinto. Quando comecei a trabalhar no mar com esse barco – arregalou os olhos para exclamar – já ele era em segunda mão, vê lá tu bem! Foi de um homenzinho que tinha mais vontade de beber que de trabalhar, o Chico Zé. Era de Viana do Castelo parece-me, comprou-o ao Mestre Jacinto em Namibe onde ficava o estaleiro do Mestre e veio perdido a pensar que os peixes entravam sozinhos para o barco e a vida de pescador ganhava-se nas tabernas. Ora, todo gingão, costa sul abaixo para Porto Alexandre onde eu já pescava e vivia desde 1953, a mim não me vinha ensinar nada, estive lá vinte e um anos – parou para recordar e sentir a velocidade do tempo. Continuou: – Nessa altura eu trabalhava num barco pequeno, o “Virgem Santa”, empregava mais dois camaradas pretos e pescávamos perto da baía de Tombwa. Acontece que o Mestre Jacinto soube que o barco do bêbedo estava encalhado numa praia a meio caminho da vila e à venda. O Chico Zé ao que parece, arranjou confusão com malta do porto de pesca, tendo mudado o negócio para contrabandista de terra para sul onde Angola faz fronteira com a Namíbia. O barco ficou esquecido na praia.

O Mestre arregaçou as mangas, cruzou os braços e prosseguiu:

– Como dava má imagem à zona e muito dinheiro ao Chico Zé ser contrabandista, o Mestre Jacinto recomprou o barco ao bêbado de Viana a metade do preço que tinha vendido. Convidou-me para mestre dessa embarcação, ele que já conhecia a minha fama de bom pescador. Foi assim que fizemos sociedade. Ele seria o armador e eu o mestre. Dava-nos uma embarcação boa para pescar maiores quantidades e nós dividíamos o lucro ao meio, cinquenta para ele, cinquenta para a tripulação. Éramos cinco a dividir a outra metade mas ganhava-se bom dinheiro, não penses! – disse com orgulho e vaidade. Prosseguiu: – Eu era o único branco a bordo e depois de trabalhar com os angolanos tornei-me num deles. Sinto-me angolano embora tenha nascido em Estombar. Onde eu estivesse ninguém os maltratava, embora seja verdade que nem todos eram como eu. Sabes, o branco criticava-os por serem preguiçosos e malandros. Os meus camaradas angolanos como levavam dinheiro do seu trabalho para casa foram tornando-se exemplo a seguir na comunidade de Porto Alexandre. Os miúdos deles aprenderam a ler, as mulheres trabalhavam no campo, criámos uma comunidade, uma família. Eles tratavam-me como se eu fosse um príncipe, aprenderam uma arte, ganhavam a vida. Isto é simples, quanto mais marginalizas um povo na sua própria terra, pior ele se vai tornando e olha que a fome e a miséria fazem o homem agressivo e a desobediência vem naturalmente e leva o resto. Esta coisa das ex-colónias está muito mal contada. A corrupção e o poder minou os brancos e veio por ali a cima. Não quero falar mais sobre isso. Não quero chatear-te com a guerra – suspirou.

A guerra dava em séries na televisão portuguesa, era um tabu da sociedade mal resolvido e o rapaz preferia direccionar a sua expectativa antecipando o momento em que o Mestre anunciaria por fim qual o nome do barco velho.

Os quatro elementos roubaram a tinta da proa precisamente onde faltava um nome e sobrava um olho negro pintado como se fosse Osíris. Levou dois dias a imaginar a figura do Mestre Pequeno e que nome teria tido o barco. Pensou em nomes como: Flor de Sal, Menina Bonita, Rouxinol, talvez o primeiro nome de duas filhas que o velho tivesse, Bela e Conceição.

– Vamos é falar do barco… – falando e tossindo. – O barco chama-se… – tossiu novamente. – Aí, perdão. O barco chama-se Nini.

De súbito, como se tivesse intuído a vontade do rapaz, aquele nome proferido pelo velho fez o improvável Sol aparecer na noite fria entrando pela janela da salinha para iluminar o rapaz que boquiaberto imaginava o barco a navegar ao som de uma rádio em AM pelo alto mar enquanto tocava “Nini Dos Meus Quinze Anos” de Paulo de Carvalho. O velho prosseguiu:

– A Nini pescava que se fartava. Os anos seguintes foram todos nossos. Eu era conhecido por Mestre Manel, que é o meu nome de baptismo, Manuel José Pinto Ferreira, mas como sou pequenino, aquela canalha tanto repetiu a graça que a alcunha pegou e assim ficou até hoje, Mestre Pequeno… Voltando à Nini. Ela tinha bom equipamento, o Mestre Jacinto não faltava com nada e como o dinheiro ia entrando tínhamos redes novas quando era preciso, sonda para ver o peixe debaixo de água, apareciam umas linhas pretas em fundo verde que marcava por onde o peixe andava e a quantidade, sabes? Tínhamos equipamento salva-vidas que comprámos aos russos ao largo da Namíbia… éramos profissionais, queríamos era pescar, pescar bem, trabalhar. Os outros pescadores, um pouco invejosos, faziam fila para nos verem a descarregar toneladas de cavala, sargo e pargo. Esse peixe ia para Benguela, Luanda e Congo onde era transformado em farinha para os animais. Ainda ia uma boa quantidade para salgar e vender para fora de Angola. Já nessa altura os americanos e franceses tinham negócios com o peixe. Aquilo foi muito mal aproveitado pelos portugueses. É dizer, em terra de cegos quem tem olho é rei.

O vento corria com mais intensidade lá fora, rodopiando numa esquina do quintal uivando sopros que abanavam uma figueira enorme que tapava metade do telhado e tombava sobre a casa.

– Fecha-me as portadas daquela janela que um dia destes um ramo da figueira caiu e partiu-me o vidro. É um balúrdio mudar uma janela. A história ainda não acabou – acrescentou.

– Sim, Mestre. E se precisar de mais alguma coisa diga – o domínio que a gentileza da sabedoria exerce sobre um ouvinte humilde e atento.

O velho pediu ao rapaz que fosse buscar um copo com água. Chegado à cozinha viu uma embalagem com saquinhos de chá misturados com variedades à escolha: cidreira, limão e camomila, o seu preferido.

– Mestre, quer chá?

– Sim, pode ser. Para mim é de camomila, se faz favor – coincidência.

Ferveu a água num púcaro de inox e despejou-a para duas canecas de barro que serviram para beber o vinho do jantar e escorriam na bancada depois de lavados. Prático. Regressou à sala e apoiou as canecas na mesa de verga envernizada que ficava à altura dos joelhos entre o sofá e a estante com as molduras. O rapaz queria saber tudo sobre o Mestre Manel “Pequeno” que navegou pela costa sul de Angola no barco Nini que apodrecia agora num estaleiro em Ferragudo.

– Está quente! Tenha cuidado, Mestre.

– Era o que faltava, conseguires fazer chá de saqueta com água fria. – risos.

O velho pediu ao rapaz que colocasse mais um tronco a queimar na lareira soprando longamente o chá para o ir arrefecendo. Aproveitou o calor do barro para aquecer as mãos e a evaporação da água invadia-lhe o nariz com o doce perfume das camomilas. O velho não tinha quem o escutasse há muito tempo e a noite ainda era uma criança.

14 responses to “Cemitério dos Barcos, Parte IV

        • A história parece ter acabado. Espero que tenha chegado até à parte VI. Conto com a sua sinceridade para ir melhorando. O Cemitério dos Barcos foi criado com espontaneidade e não pretende ter um aspecto acabado. As coisas que ficaram por partilhar não se esgotaram. Foi escrito com muito coração e pouco método mas com todo o prazer. A si que comentou e seguiu, Muito Obrigado!

          • Será que acabou…? Diz-me que ficaram coisas por partilhar… De facto, deixou ‘fios’ suspensos no conto que podem ser explorados quer para ampliar este conto, ou para escrever novos contos que, embora independentes, remetam para ele. Acho que sabe o que precisa de ser ‘polido’ (por exemplo em termos de gramática), pelo que não vou pretender dar-lhe lições..
            E eu também sei o que é, e como é, ‘escrever com o coração’, e sei como é depois difícil relermo-nos e fazermos as coisas que a razão nos diz que precisamos de fazer…

          • Isto é um esboço Nina, sempre foi. O rapaz, o velho e a Nini estão apenas à espera no estaleiro para embarcarmos numa outra viagem, mais longa, mais… pelo Cemitério dos Barcos.
            Entre a perfeição e a aprendizagem existe um caminho a trilhar sem pressas. Sou uma pessoa apaixonada que primeiro faz e depois pensa, como as crianças. Acredito que este descontrolo e desapego pela “escola”, pela “regra”, faz parte do meu percurso criativo e de vida. Diga a uma criança que chocolate faz mal aos dentes: – Não faz mal porque ainda são de leite e eu quero mesmo é perdê-los.

            O tempo e as suas partituras, os segundos, minutos, horas e milénios, compõem esta história como os puzzles, revelando peça após peça uma arte que vai sendo perdida ao ponto do Homem cometer vezes sem conta os mesmos erros, transformando a imagem que vinha na caixa e propunha a composição de um veleiro majestoso num pedaço de madeira a duas dimensões, esquecida e abandonada como outra coisa qualquer que tenha alguma vez existido. O Cemitério dos Barcos.”

            Contarei sempre com a sua opinião, Nina. A sua atenção, ironia e rigor estão como a água para as sementes. Muito Obtigado.

    • Bom dia. Esforço-me por escrever uma nova parte a cada dia da semana. Deito-me a sonhar com o estaleiro… Obrigado pela força Manuela. Segunda-Feira esta história acaba e uma outra começa.

    • A história parece ter acabado. Espero que tenha chegado até à parte VI. Conto com a sua sinceridade para ir melhorando. O Cemitério dos Barcos foi criado com espontaneidade e não pretende ter um aspecto acabado. As coisas que ficaram por partilhar não se esgotaram. Foi escrito com muito coração e pouco método mas com todo o prazer. A si que comentou e seguiu, Muito Obrigado!

      • Ainda não completei a leitura, mas vou fazê-lo. Por vezes a indisponibilidade de tempo não permite acompanhar a ligeireza das publicações. Continuarei a passar por cá, a dizer com sinceridade o que penso. Evoluir na escrita é um processo demorado que também eu vou aprimorando. Importante é não parar de escrever e ler bastante – bons livros, sempre. Inspiração, imaginação, tempo e perseverança, são elementos essenciais para continuar e crescer! Acredito que vai no bom caminho!

  1. Quando um conto é inserido em certo contexto histórico, um contexto real, fica mais fácil de se perder, de falhar. Mas se a minha humilde opinião fizer alguma diferença, não posso deixar de dizer que você o fez bem. Agora, com licença, o tronco está queimando na lareira e o mestre ainda tem mais a relatar.

    Inté mais,
    “camarada preta”

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