Cemitério dos Barcos, Parte V

Texto dividido em 6 partes.

O cheiro do azevinho a queimar na lareira transformou o calor em incenso. A lenha crepitando compunha com notas crocantes de orquestra flamejante a segurança e conforto do ambiente. O rapaz, contemplativo, pousou a caneca já vazia na mesa de verga e esperou que o Mestre terminasse o seu chá.

Sons violentos habitavam as ruas de Ferragudo. A bicicleta que ficou lá fora devia estar a enferrujar e o balanço do temporal talvez a tivesse empurrado contra os canteiros. As antenas e os fios eléctricos batiam nas telhas, os algerozes vertiam água contra chapas de latão que pareciam ser regadas por mangueiras de pressão. O velho preparava-se:

– Já viste o tamanho da Nini, uns bons quinze metros de comprimento e quatro de largo. Agora imagina o que era esse barco quase a meter água de tanto peixe que carregava. Toneladas! Era na Baía dos Tigres em noites de Lua Cheia, a sul de Porto Alexandre, quase a chegar ao Deserto do Namibe que a Nini atraia mais os peixes. Mandei pintar o fundo do barco de branco, sabes por quê? Por que as fêmeas nas noites de luar sentem uma dor, ficam enfeitiçadas e dançam na água perto da superfície. Os machos vão atrás delas e juntam-se todos a namorar. Sentem o luar mas confundem o barco com a Lua. Dava-me pena enganar assim os bichos. E junto à Praia dos Homens? O truque era ligar as pontas da enseada com rede ao comprido quando o mar levantava vaga média na vazante, mas!, se fossem demasiado grandes quem lá ficava éramos nós a dar de comer aos peixes, cuidadinho. O peixe assustado encostava à rebentação e ficava desorientado. Depois dávamos força ao motor para os assustar ainda mais até que vinham direitos à rede a pensarem que assim conseguiam fugir. Só por milagre. É preciso ter muita atenção a estas coisas. Eu sempre que chegava a casa anotava estas experiências em livrinhos de contas como aqueles que tinham antigamente as mercearias para dar fiado, tu já não és desse tempo! Apontava as marés, desenhava as voltas do cerco, apontava as toneladas a direcção do vento, a humidade, enfim. Quem manda é a Natureza, estás a ouvir? Lembra-te disto. Bem, os outros barcos regressavam a terra e quando atracavam vazios já se sabia pois claro, era tudo à espia da rainha Nini. O Mestre Jacinto esperava no porto e tentava afugentar as “gaivotas”, era assim que ele corria aos gritos os invejosos – riu. Só saíamos para o mar quando eu queria e o Mestre Jacinto nunca me perguntou uma única vez por que razão não íamos todos os dias. O peixe é como as pessoas, tem uma vida, família, procura comida e isso dá muito trabalho. O peixe tem hábitos. Ora, pescar bem é perceber o peixe. Ele anda com a Lua e com as marés, as marés andam com a Lua e com o vento e nós andamos ali a boiar, percebes? Eu só saía para carregar a Nini e quando isso acontecia trabalhávamos até ficar com os bafos de fora. Havia dias que tinham quarenta e oito horas.

– Mas não trabalhavam só na Lua Cheia, certo? – perguntou o rapaz.

– É como te disse. Na Lua Cheia carregávamos pela certa, nos outros dias era ir observando a Natureza e o que ela ensinava –  reforçou a ideia.

– Mestre, sei que tem muitas histórias para contar mas há uma que não me larga e ainda não contou.

– Queres que te fale no barco velho que está no estaleiro a apodrecer – afirmou em tom premonitório sem surpresa.

– Sim, estou morto de curiosidade para saber como foi ele ali parar. Deixe-me adivinhar – interrompeu a história da Nini no ponto em que ela era nova, majestosa  navegante. Para o Mestre, fazer regressar essas memórias era beber juventude. Ele sentia a morte no precipitar da vida, transmitir a história da Nini era falar de si próprio, deixar tudo testamentado. Não se ofendeu com o salto no tempo que o jovem ansiava dar, já viveu a imaturidade das descobertas, querer rasgar o tempo, ser adolesceste quando se tem dez anos e adulto quando os dezoito estão a abeirar-se lentamente.

– Adivinhar? Ainda nem disse onde era Namibe – relembrou. – Muito bem, eu espero ter tempo para contar-te o resto.

O Mestre Manel “Pequeno” ajeitou-se no sofá, parecia ter evitado ao máximo chegar a esse ponto da história, voltar ao inicio e ao meio e pulular até sentir a Nini morta e podre num estaleiro perto de casa, chegar onde as memórias acabam e a vida recomeça empenada, ser agora, ser o momento de ganhar coragem e revelar. Solidão, não escondeu o desconforto franzindo a testa.

– Deixei parte da vida enterrada em África – confessou.

A Nini estava sepultada em Ferragudo e o rapaz estremeceu. Quando o velho verbalizou enterro soou a cemitério, as fotografias a preto e branco queriam sair das molduras e vaguear pela casa. “Eles? A lindíssima senhora e o menino?”, pensou aflitivamente engolindo em seco.

O lume ia perdendo força, a chuva caía com gravidade, a sala ficava mais pequena e o velho ajeitava-se uma e outra vez no sofá. Parecia que Nini não morrera afinal sozinha. Depois de sentir a transformação do velho Mestre que desfigurara o seu ar imaculado o rapaz não quis adivinhar mais nada. O velho puxou uma almofada para o colo e repousou as mãos talvez a preparar o coração para exorcizar o canto mais escuro da alma.

– Mestre, desculpe a pressa.

– Não precisas de pedir desculpa – consentiu com simplicidade. – Eu já não falava há muito tempo sobre aquela manhã de Outono, mas vou contar-te como tudo se passou.

– Importa-se que coloque mais um tronco na lareira? – pediu timidamente o rapaz.

– Sim, faz isso…

6 responses to “Cemitério dos Barcos, Parte V

  1. mestre pequeno e mesmo um balhao. bons ventos para os teus textos.estou a deliciar-me com a tua escrita.abraço

    • A história parece ter acabado. Espero que tenha chegado até à parte VI. Conto com a sua sinceridade para ir melhorando. O Cemitério dos Barcos foi criado com espontaneidade e não pretende ter um aspecto acabado. As coisas que ficaram por partilhar não se esgotaram. Foi escrito com muito coração e pouco método mas com todo o prazer. A si que comentou e seguiu, Muito Obrigado!

    • A história parece ter acabado. Espero que tenha chegado até à parte VI. Conto com a sua sinceridade para ir melhorando. O Cemitério dos Barcos foi criado com espontaneidade e não pretende ter um aspecto acabado. As coisas que ficaram por partilhar não se esgotaram. Foi escrito com muito coração e pouco método mas com todo o prazer. A si que comentou e seguiu, Muito Obrigado!

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