Cemitério dos Barcos, Parte VI, Fim

Texto dividido em 6 partes.

– Foi durante a madrugada que os camaradas pretos acordaram-nos aos gritos – Acorde Mestre! Acorde! – Fiquei assustado, claro. Lá fora deram-me a notícia que o Mestre Jacinto e a mulher tinham sido mortos em Namibe por milícias armadas, um homem bom como aquele… a guerra é madrasta! Percebi que era hora de partir. Os camaradas tinham vindo para ajudar no que fosse preciso. Foram eles que nos salvaram! Eu tinha um machimbombo velho, uma carrinha de caixa aberta pronta para arrancar a qualquer momento e o dinheiro de uma vida de trabalho trocado em dólares escondidos pela casa, antecipei-me… mais tarde ou mais cedo, se não o tivesse trocado, teria a mesma sorte que tantos outros e saía de Angola com uma mão à frente e outra atrás. Trouxe o meu suor, apenas isso! De avião já não podíamos regressar, os caminhos para o norte de Angola estavam controlados e assim fiquei encurralado a sul com esposa e filho. Vês as fotos? – apontando para a estante. –  Aí tens as minhas pérolas, os meus amores… custa relembrar os últimos momentos em Angola… – verteu uma lágrima que foi absorvida por um gesto rápido com o ombro que a amparou pelo caminho. – Na melhor das hipóteses teríamos fugido os três pelo deserto do sul até à Namíbia na esperança de chegarmos vivos à África do Sul… mas não… eu não quis! Não perdi tempo, arranquei para o armazém junto ao porto de Porto Alexandre e com a ajuda dos camaradas pretos carregámos a Nini com oito bidões de gasolina, não havia espaço para mais. Voltámos a minha casa para carregar o machimbombo com água, comida e uma ou outra coisa não tanta quanto isso. Parti de Angola a 17 de Outubro de 1974 e vim por mar com a família na bela Nini. Deixei a casa onde o meu filho nasceu, bons amigos, aquele mar cheio de peixe… a pátria… a minha querida Angola… acreditas-te que não me lembro do dia em que cheguei a Portugal…

Cerrando os punhos na almofada que tinha ao colo, verteu-se em água nas mágoas que corriam apressadas pela pele rugosa. O jovem respeitou-as em silêncio sem dizer palavra e aguardou que a bonança tomasse lugar na tempestade de memórias que o Mestre Pequeno enfrentava.

– A Nini – continuou o Mestre, – bateu a costa africana todinha. Não nos podemos queixar da viagem, navegávamos um bom barco e eu andava ao mar desde os catorze. Quis vir juntinho à costa, a umas quatro milhas no máximo, para não apanhar um borrasca forte e desnortear-me em alto mar, ainda ia parar ao Brasil. A sonda não me servia de grande coisa mas sempre dava para ir pescando uns peixinhos com as redes que tinha a bordo. A maioria do peixe que comemos veio já salgado de Angola, era a nossa conserva. Bem, passaram-se meses, meses a ver mar e uma linha pequenina de horizonte e a costa africana. Chegámos vivos graças a Deus. Aproveitei certas correntes marítimas para navegar sem motor e poupar combustível mas ainda atraquei, que me lembre: no Gabão, Nigéria, onde quase fomos roubados num porto, Costa do Marfim, no Senegal consegui comprar fruta e chocolates para o miúdo a uns marujos franceses ancorados a poucos quilómetros de Dakar, depois foi… Mauritânia, até que em Marrocos, costa acima… a navegar, a navegar, frio, calor, frio, muito vento… em Marrocos, até que enfim! encontrámos um barco de pesca espanhol, a “Consuelo”, um barco da Coruña que nos rebocou até ao Algarve, até Ferragudo. Há com cada uma, vê lá tu bem que acabei mais tarde por fazer sociedade nos anos 80 e 90 com o mestre espanhol desse barco, o Toño Vega. Carregávamos camiões frigoríficos com salema e tainha que havia à patada na costa algarvia. Esse peixe valia cinco vezes mais no outro lado da fronteira, muchas pesetas, lembro-me como se fosse hoje! A minha esposa já não vive aqui em casa infelizmente, está acamada num lar, não a tenho comigo desde que ceguei, senão tu ias ver! A minha Adelaidinha…

– E o seu filho? – perguntou o jovem ao quebrar o voto de silêncio.

– O meu Álvaro está em Moçambique a trabalhar na construção civil. Como o Mundo é pequeno… o sacana voltou para África – disse sem deixar escapar um sorriso. – Ouve, não nos deixa faltar nada: tenho uma senhora que me limpa a casa todas as segundas e é ele quem paga os tratamentos e o lar à mãe. Foi pai muito novo, deu-me uma netinha que vive e estuda em Coimbra, a minha Sandrinha. Deus queira que chegues a velho. Quando lá chegares talvez sintas necessidade como eu de estar perto das coisas que não nos deixam morrer tão sós. No dia em que me deixares de ver às terças-feiras naquele cantinho do estaleiro talvez eu tenha morrido.

– Então aquele barco velho ao abandono é o que resta de Angola e das suas memórias. E chamava-se Nini… – concluiu o rapaz.

– Sim. Sentir que a Nini ainda ali está para saber onde ficarão sepultadas para sempre as minhas memórias. É o cemitério dos barcos.

O velho levantou-se, montou a bengala e pediu ao rapaz para abafar o lume com cinza. Fez questão de albergar o rapaz por uma noite pois lá fora a chuva forte e o vento deram lugar a uma tempestade medonha. Pedalar até Portimão seria penitenciar em teimosia.

O sofá calibrou-lhe o sono. Acordou com a manta debaixo do nariz a cheirar a fumeiro. A janela, já com as portadas abertas, deixava a claridade violar os olhos remelosos e colados da cara por lavar. O Mestre havia madrugado e já se encontrava no quintal a limpar com um pano a mesa e as cadeiras molhadas. O Bobby andava louco atrás dos pombos e dos pardais que bicavam algumas sobras que caiam da gaiola dos pintassilgos do vizinho do lado. O chão do quintal todo pintalgado com pétalas de sardinheira e flor de amendoeira tornavam o chão num mosaico gigantesco de rosa, vermelho e branco.

– Dormiste bem rapaz? – perguntou o velho.

– Maravilha, estou como novo. Ena, céu limpo!

– Agora já sabes onde me encontrar. Sempre que quiseres passa lá no porto às terças-feiras ou aqui em casa. Só costumo sair depois de almoço para ir ter com os amigos à taberna da Mexilhoeira da Carregação.

– Pode ter a certeza que volto! Obrigado por tudo Mestre Manel, agora tenho de ir andando.

Cumprimentou o velho com um abraço sentido que preencheu os lugares remotos que a solidão esvazia. Finalmente podia passar no porto e contemplar a Nini a apodrecer orgulhosamente no estaleiro, finalmente podia contemplá-la e olhar o horizonte e imaginar África e os seus encantos de mãe.

Pedalou até ao estaleiro e parou junto a Nini. Ficou deliciado a olhar para o reflexo da água que fazia ulular uma aurora boreal na silhueta gasta de um outro barco velho que certamente guarda as melhores memórias de um outro pescador qualquer.

9 responses to “Cemitério dos Barcos, Parte VI, Fim

    • Foi uma óptima experiência. Escrever com o coração sem fazer pausas. Acordar, pensar nas personagens e na ação; escrever depois de almoço até às 17h, 17h30 e fazer o post. O grande objectivo foi testar a fluidez limitando o tempo. O CEMITÉRIO DOS BARCOS não estava escrito nem guardado numa gaveta. Foi nascendo… tu melhor que ninguém sabes o prazer que me deu criá-lo assim. Além disso és quem me tem ajudado a acreditar que o sonho é possível. Com grande respeito e gratidão, obrigado Vânia.

  1. Como muito bem disse a vania, fantastico… Captivaste-me durante os 6 capitulos. Adorei acompanhar esta historia e como te tenho dito, gostava de ve-la numa vitrine de uma livraria! Acho que é material muito bom no entanto acho que precipitaste o fim um bocadinho nao foi? Compreendo que se nao o fizesses acabarias por publicar um livro online ;) Tenho fé em ti irmão. Abraço

  2. Finalmente por aqui, no porto – a terminar a leitura desta história cheia de alma e imaginação. Gostei muito. É importante continuar – mais e cada vez melhor -, a aventura da escrita e do sonho! Parabéns!

  3. Mais uma vez, não me importa em tecer elogios aduladores, porque você me comeveu ao ponto de me fazer sentir as palavras. Com a riqueza de detalhes que dispensas aos teus textos, tens me cativado como leitora, sr. Homem do Aponta. E, por favor, onde clica para requisitar mais textos como este?

    Inté.

    • Tento ser honesto em tudo que faço. Escrevo como vivo; com paixão e sinceridade. Tenciono trilhar o caminho que me leve a viver do que penso e sinto.

      Muito obrigado Cri.

    • Bom dia Gonçalo,

      vi a tua pegada no Apontabem e espero que visites esta estufa mais vezes. Talvez vás gostar do novo post DESAPARECIDO.

      Um forte abraço

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