Era água!

Podiam ser gotas de chuva que caiam solitariamente, mas não. Eram muitas gotinhas juntas no mesmo sítio. Era água.

Nos canos, por exemplo, aguardam litros e litros de água que podem evaporar-se nas gargalhadas do calor, acariciarem corpos sujos que purificam no banho, ou até baptizarem uma criança contra a sua vontade. Depois, cano abaixo e céu acima, viajam pelo Mundo como nuvens a ignorarem os desertos, ou em cubos de gelo a derreterem-se nos copos onde conhecem laranjas em sumos naturais, ou até a gelarem um pé torcido numas escadas.

– Vá meninas, preparem-se! É o momento. Ele está-se a despir, mantenham a calma e fiquem alerta! – gritos que ecoavam pelos cilindros galvanizados que as paredes escondem.

O Professor Aqua, aquele que gritava, encheu-lhes a cabeça com histórias sobre a finalidade das gotas: disse-lhes que uma gota que se escape pelo ralo sem lavar o corpo que percorre contornando, é como a água que escorre pelos lados da boca, descendo pela pele do pescoço sem matar a sede. Ficam aterrorizadas.

– Está a verificar se há gel de banho! – gritou mais alto o Professor Aqua. – A toalha não foi posta ao ar e algumas ex-colegas vossas ficaram bafientas a criar o cheiro da humidade. Eu avisei-as! Tenham atenção ao percurso! Se for preciso agarrem-se e empurrem-se umas às outras. Está quase!

No cinema as luzes apagam-se; no teatro o pano abre; na banheira, mão na torneira e o pulso roda: a primeira jorra de água sai e percebe que o Professor as enganou, as primeiras gotas são sempre apontadas ao ralo, água fria! água fria! gotas que gritam e choram o engano com arrepios e fobia a esgoto; outra jorra escorrega na pressão e sente-se morna por passar no esquentador, longe ainda da plenitude do inferno butano, e assim, na melhor da hipóteses, agarram-se às mãos do rapaz que somente lhes mede a temperatura. Água morna!

– Meninas, oiçam! Vocês são a verdade, a água das águas, a água que o gás deste esquentador ferve, a água que povoa os sonhos de Inverno, que arranca a pele, que aquece a nuca e percorre a silhueta com deleite! Meninas… avançar!

Estas não escorrem, cavalgam. Sentem-se géisers compressos em metal, vislumbram a luz ao fundo do túnel e… a distância que as separa dos cabelos do rapaz assemelha-se a uma eternidade em slow motion, a atracção gravítica para o centro da Terra, o atrito produzido pela guerra com o ar até chegarem ao destino em sons, em sup… sup… sup… sup… cada vez mais alto, até ao splash!

Percorrem o corpo em orgasmos liquefeitos, enfeitando o volume da casa de banho com neve quente que ora cai, ou levita, ou paira, mas aquece sempre. Olhos fechados na volúpia dos sentidos.

Uníssono de palmas no outro lado da casa. Numa qualquer Gala entregam-se prémios ao Professor Aqua e ao esquentador. A plateia de pé, algumas das ex-alunas precipitam-se em lágrimas pela assistência mais sensível e outras tantas gotas encontram-se engarrafadas e presas por tampas de plástico azuis na esperança de serem bebidas para acalmarem a emoção dos eventos sociais mais aquosos, dos prémios!

Na rua, enquanto chove, fazem-se manifestações para que a água seja poupada. Nos jornais, os advogados do Professor Aqua explicam que o banho era de termoacumulador.

Parou.

Ouve-se o barulho da corda da roupa a guinchar nas roldanas empenadas. Duas molas, uma num lado outra no outro. A toalha seca ao Sol e as gotinhas evaporam-se todas.

eh-agua

8 responses to “Era água!

  1. magnifico,criatividade acima da media.ja tinha saudades dos teus textos,continua.abraço. a casa tem sempre razao.

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