Setúbal, Bairro das Fontainhas

( ↓ 24 fotos ↓ )

8h30: o primeiro Sol bate nos brancos e é reflectido para nos ferir a vista; o Bairro das Fontainhas acorda comigo a ser olhado de lado pelos seus habitantes que não estão acostumados a máquinas fotográficas. Todos levam alguma coisa em saquinhos de plástico, mas cumprimentam-nos sempre: – Bom dia!

As escadas levam-nos a sítios onde já estivemos, e quando pensamos que já nos orientámos, aparece uma que sobe, outra que desce e voltamos ao ponto de partida como nos buracos negros; as molas prendem roupa – que seca sem medo de ser roubada – emprestando um floreado colorido e plástico às linhas de nylon  que batem nas paredes comidas pela humidade.

Neste bairro coabitam azulejos magníficos com paredes por estucar; pedra após pedra, vão surgindo de quando em vez: estradas estreitas, passeios íngremes e becos macadamizados.

Felizmente a comunidade brasileira povoou mais o bairro no final do séc. XX e alguns ainda por lá resistem, dando manutenção às casas que alugam e alegria à tristeza de uma população idosa. É costume acontecer festas de forró com churrasco e muita cerveja.

Nele habita gente pobre que tem o privilegio de acordar com o Rio Sado a correr vaidoso para a foz, gente que vê o magnânime pôr-do-sol para lá da Serra da Arrábida, na promessa de no dia seguinte nascer com os mesmos contornos de paraíso por trás da Península de Tróia, talvez em Grândola, essa vila morena.

O Bairro das Fontainhas, olvidado pela autarquia e pelos próprios setubalenses, não se esquece de preservar um dos traçados mais antigos e característicos de uma Setúbal onde Bocage frequentava boémias tabernas e onde pescadores desentranhavam redes e cabos.

Quero uma casinha nas Fontainhas.

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10 responses to “Setúbal, Bairro das Fontainhas

  1. Quando a comunidade sente os lugares como seus, trata-os bem e investe na sua manutenção e embelezamento, sem ficar à espera das verbas autárquicas (se não corre o risco de ficar a ver a degradação aumentar…). Através destas fotos (que belas!) imagina-se a infância a crescer em convívio, a brincar na rua sem os pais isso temerem. Imagina-se os mais velhos a receberem o apoio dos vizinhos, numa solidão menor que a das grandes urbes. Imagina-se os namorados a procurarem os becos…E o miradouro fez-me voltar ao tempo em que lá ia lanchar com minha mãe…

    • Olá Clara,

      seja bem-vinda ao Apontabem. O seu comentário é inspirador e lúcido, cheio de conhecimento e compreensão, próprio de alguém que percebe “a coisa” para além do texto e imagens que publiquei.

      Tome a liberdade – e um pouco de tempo – para passear neste e noutros bairros por documentar. Descubra outros textos, outras reportagens e faça-me crescer.

      Obrigado, abraço sadino

  2. Gostei muito deste post. O texto explica com poesia aquilo que as fotografias revelam sem palavras – a alma por detrás das cores e das formas de um bairro a transbordar de musicalidade e vida.

    • Boa Noite Marília e seja bem-vinda ao Apontabem.

      Este foi o primeiro post de muitos bairros tipicos que a minha cidade guarda. Venha descobri-los!

      Muito agradecido pela atenção, um abraço.

    • Boa tarde Ana,

      espero que o post Bairro das Fontainhas a tenha feito regressar por momentos àquele sitio mágico.

      Venha conhecer outros posts, será sempre bem-vinda.

      Obrigada e um beijo.

  3. Fontainhas, o bairro onde nasci e vivi até casar, era o sonho de qualquer criança podermos brincar na rua sem problemas porque havia sempre alguém a proteger-nos, vizinhos ou familiares e no verão era maravilhoso as sardinhadas que se faziam e se comiam na rua nas escadinhas nos becos, era outro mundo.
    Obrigado

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