Nós, os Sonhadores

Há qualquer coisa que nos aproxima.

Nós, os sonhadores, passamos a vida a baixar o vidro do carro para deixar a mão a desenhar ao vento. Ondulamo-la como se um golfinho nos acompanhasse no asfalto, lado a lado.

Nós, os sonhadores, observamos o trajecto das libelinhas e abelhas e zângãos e moscas que embatem no vidro do carro e, com a mesma velocidade que nos lembramos que podíamos ter sido nós a cumprir fatal destino, accionamos o limpa-pára-brisas para sujar ainda mais o vidro. Os semicírculos brancos que se formam em seguida, fazem-nos concordar que as escovas precisam de ser substituídas e, com sorte, pode ser que chova num dia solarengo.

Nós, os sonhadores, após comermos pão com manteiga, tentamos aproveitar as migalhas que se perdem no prato, fazendo pontaria à caneca com um restinho de café. Acertar no alvo pode muito bem melhorar o nosso mundo, dinamizar momentos entediantes e, porque não, o cosmos. Olhamos cá do alto para uma migalha lá no fundo como se de uma galáxia se tratasse.

Depois, nós, os sonhadores, observamos a forma curiosa e única que a mão humana adopta nesse arremesso pericial de migalhas. Enumeramos as suas utilidades e terminamos frequentemente a coçar a cabeça em pensamentos ou a repousar as ideias no queixo, entre o polegar e o indicador, normalmente com o cotovelo a servir de base. Pensamos nos limites do universo.

Dormimos na insónia, acordamos com pavor a obrigações, mas, sempre que possamos, vamos num pulo até à margem de um rio ou à beira-mar no crepúsculo, mesmo que estejamos, em realidade, a ser esborrachados num transporte público alternativo em dia de greve.

Nós, os sonhadores, recusamos deixar fugir uma bola de sabão pelos ares. Rebentamo-la e fazemos em seguida outras tantas até não nos ser possível distinguir uma banheira cheia de espuma de uma garrafa a verter champanhe em cascata.

A música toca na rádio um infindável horizonte que se afasta à medida que nos aborrecemos à procurar de outras frequências, fazendo da ponta do nosso dedo uma caneta numa folha em branco e das nossas vidas um sonho constante.

Nós, os sonhadores, só precisamos de estar acordados.

nos_sonhadores

17 responses to “Nós, os Sonhadores

  1. Lindo :) gostei muito de ler e viajar um bocadinho. Somos pessoas fantásticas, e teimo em aproveitar os pormenores desta vida até não poder mais rir.

  2. Pingback: A Biblioteca e os concursos | De leituras e outros entendimentos·

  3. Em confronto intuitivo com o texto (poema em prosa?), reconheço-me enquanto sonhador, mas qualquer maldição me tocou desde não sei quando, que dá a todos os meus sonhos o contorno de pesadelos…

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