Memória de Pescador

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Céu nublado sem ameaça de chuva. A recta é de terra batida ladeada por ervas daninhas e viçosas que guiam o olhar, subindo, subindo, até encontrar as casas de apoio dos pescadores de Ferragudo.

Este modelo traz-me recordações fabulosas. Quem cresce neste universo fareja o odor húmido do carvão abafado com areia e água à distancia, aprecia como ficaram lãzudos os gatos após banquetearem-se com as cabeças e as espinhas e os restos de salada de pimentos vermelhos assados e até encontra um ou outro felino com azeite e orégãos nos bigodes, enquanto procura o melhor local para se evaporar da realidade ronronando.

Vestígios do almoço.

Não são só os esqueletos dos ouriços-do-mar a decorarem o espaço, as garrafas de plástico a servirem de vasos, as canas a servirem de pára-vento, uns chinelos velhos reproduzem certamente a função do abanico para o fogareiro e de leque para os dias de maior calor. Um pescador nunca se desfaz dos objectos como os ocidentais: há até uma arvore que não caiu porque o reaproveitamento de dois pedaços de pau servem de pilares e mantêm-na viva e hirta; há até um monte de cabos de nylon, ressequidos, retesados, que fazem de beliches para os gatos e sempre dão para remendar uma ou outra rede; há até um peluche na entrada de uma barraca que pode ser a simbólica comparência de um neto ou neta que viva longe; há até mil e uma coisas que nos são impedidas intuir mas com um propósito latente.

Não vi ninguém a almoçar, cheguei tarde. Só fui a tempo de encontrar as cadeiras de plástico empilhadas e uns panos turcos que, quem sabe, tenham servido para limpar a mesa ou secar a loiça.

Não os vejo aqui. Talvez eles estejam na taberna a fazerem a digestão com medronhos, bagaços fortes em cafés cheios, tabaco barato e de enrolar e muita cinza em conchas a fazerem de cinzeiros. O pescador mais velho manda calar o mentiroso que invoca memórias erradas ou exageradas da quantidade e qualidade, enquanto o pescador mais divertido pede ao mais talentoso que cante um fado corrido ou uma anedota com o maior número de asneiras possível, por favor. Joga-se dominó e sueca e é a dinheiro, por favor. Uma ou outra nódoa de vinho tinto em toalhas plastificadas com padrão xadrez de vermelho e branco que um pano amarelecido pela lixívia facilmente limpa deslizando, até produzir aquele zumbido tão característico nesse movimento horizontal e rápido, zzzvit, zzzvit, zzzvit.

E eu, sozinho, a aproveitar o tempo que me resta com os gatos que guardam as casinhas dos pescadores enquanto dormem.

Olho para este sitio vazio de gente e navego na memoria dos Verões  que passei na minha casa de pescador no Portinho da Arrábida, esperando que o horizonte fosse cortado pelo barco do meu pai que traria salmonetes ou besugos? Carapaus ou douradas?

A mãe fazia-nos pão com manteiga antes que tivesse as mãos sujas pelo carvão. O irmão a tentar acertar os calhaus nas gaivotas e eu, como os pescadores fazem com os objectos e com as memórias, a guardar aquilo tudo intuindo que me faria falta.

Fez-me hoje, faz-me sempre.

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10 responses to “Memória de Pescador

  1. Escrita sempre brilhante, invocadora de memórias. Não precisei de ver as fotos. Bastou ler e estava lá. Tudo tão familiar. Recordo com amor ambos os meus avós, Homens do Mar, e também as tardes soalheiras a comer peixe assdo no quintal! Obrigada por este momento.

    • Somos ambos filhos e netos do mar. Talvez me tenha esquecido do pão alentejano que fez de cama para as sardinhas. Esqueci-me certamente do sal a explodir no calor das brasas.

  2. Bem-vindo meu amigo. Já faz algum tempo que não lia nada seu. Mesmo sem aas imagens, dá para ficar lá num instante. Continue escrevendo que eu continuarei a deleitar-me com os seus textos. Obrigado

  3. Quando existe uma projeção sensorial igual à que acabei de ler (leio-a quase todos os dias), julgo que qualquer adjetivo é diminuto face ao que consegui ver, ouvir e sentir depois de me sentar ao lado dos pescadores… Fico-me pois pela devida Contemplação deste manifesto tão teu e ao mesmo tempo tão “nosso”, embevecido com a nobreza de um Homem Menino!!!
    Um abraço…

  4. sabes bem que nunca fui muito bom para a escrita. o que pode um pai pescador escrever sobre este lindo texto. nada mais que se orgulhar dos seus filhos, nao so por aquilo que escrevem, mas sobretudo o que eles para mim representam. abraço cheio de mar………

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