O que é uma Micucuru? I

Texto dividido em 5 partes.

As dores no peito aumentaram e os exames eram inconclusivos. A febre dava-lhe tonturas. Conseguiu ler as notícias apenas pela manhã, perdendo a concentração com facilidade no que sobrou dos ponteiros do relógio até servirem cedo o jantar. Começou a interessar-se pelo horóscopo sem motivo aparente e questionou-se se existiria sal na cozinha do Hospital.

Adormeceu lentamente no gotejar do soro, a nuca suada sobre a almofada; cobriu-lhe uma névoa verde-clara como um cavalete que sustentava a paisagem, o teto do seu quarto.

Desatou a sonhar.

Todo nu, tremeu de frio a amparar a água fria de uma cascata. Protegeu-se num abraço com as mãos a cruzar ombro a ombro e o queixo ao peito. Escorreu-lhe água pela testa, contornando orelhas, curvando subitamente para a boca onde lhe matou a sede: fresca, suave.

A torrente de água parou.

Descruzou os braços e olhou para trás. O curso do rio desenhava-se ziguezagueando o sonho por entre árvores e pedras. Cada pedaço de água amparada acabou inevitavelmente mais à frente numa foz prateada para um mar sem nome onde todos os rios e afluentes se encontravam.

Acordou sobressaltado na cama do Hospital com uma convicção:

– Hoje vou morrer.

No lado direito da cama, ainda remelado e transpirado, olhou janela fora para a chaminé do Hospital que nos dias mais frios ou húmidos tornavam evidente o expulsar do vapor. Essa visão foi cortada sucessivamente pelo voo de pardais, pombos e por uma cegonha, esta última provocando-lhe um sorriso subtil, em tudo igual àquele que dava às filhas quando elas viajavam. Um sorriso ensaiava o adeus.

– Sim, é hoje.

Abriu a gaveta da cabeceira onde guardava os jornais diários e uma caneta preta para fazer as sopas de letras. Abriu a palma da mão esquerda e puxou a tampa da caneta com os dentes. Meditou breves segundos e escreveu testamentalmente na mão aberta: o que é uma Micucuru? Beijos do avô.

Colocou a tampa na caneta e guardou-a novamente na gaveta.

Suspirou nostalgicamente, recordando os quatro netos a espezinharem a poça resultante de um banho de mangueira no quintal.

A noite, por fim, chegou.

Seguiu-se um entorpecer, uma ânsia que vedava os pulmões, um fechar de olhos e boca como quem mergulha nas profundezas. Agarrou-se aos ferros da cama. As gotas de soro pingavam sem motivo, mas pingavam. Os braços abriram-se finalmente para não fecharem mais.

 

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