O coração dos índios

Havia uma floresta com árvores tão altas e copas tão densas que os raios de sol tinham dificuldade em iluminar o solo. Tão densa, tão densa, que a chuva juntava-se nas folhas caindo socalco a socalco até formar autênticas cascatas em peso e som.

Debaixo desse primeiro céu verde e castanho vivia uma tribo de índios que se isolara em segurança como as aves nos ninhos.

De noite, mesmo com lua cheia, a luz continuava a ser pouca e uma ou outra estrela tornava-se visível por entre a vegetação. Em noites como essa, só o chefe, o feiticeiro e as mulheres grávidas podiam ir até à clareira ver O Sono da Alma Grande onde caíam estrelas para dentro da floresta.

O dia chegava. A clareira enchia-se com outros elementos da tribo que brincavam, aprendiam a caçar e a correr atrás ou à frente do perigo, o mais novo aprendia a ser mais velho.

As crianças, imitando a linguagem e a sabedoria da floresta e da terra, passavam pelo tempo sem o conhecerem. Mas há um dia em que todos vão conhecer o céu. Todos.

Szal, índio adulto e experiente na arte de não se deixar enganar pelo vento e por animais ferozes, levou a filha Layah pela primeira vez para fora do abrigo das árvores onde os raios de sol concentram-se por fim num gigantesco teto de luz branca, cândida, aquela que cegava os olhos dos iniciados. A explosão de branco na alma diluía-se em azul e os olhos lacrimejantes descobrem finalmente O Segundo Céu.

– Pahí – disse Szal – este céu chama-se Pahí e é A Alma Grande, O Segundo Céu.

Em seguida, deitou-se no chão de barriga para cima convidando gentilmente Layah a fazer o mesmo.

Layah , que ainda imitava a linguagem e a sabedoria da floresta e da terra, cruzou os pés, colocou as mãos atrás da cabeça e tentou controlar a respiração que lhe fugia para todo o lado. Teve muito medo de cair no céu, naquele nada, no que não conhecia nem sabia imitar. Agarrou-se ao pai como se se estivesse a afogar nos banhos do rio.

– Tens medo de cair – afirmou Szal, completando. – O Primeiro Céu viu-te crescer e não caíste. O Segundo Céu conheceu-te agora. Olha-o outra vez. É o coração dos índios que nos agarra à terra como a raiz segura a árvore e como o rio segura a chuva.

Layah largou o braço de Szal e sentiu o rufo do coração abrandar aos poucos. As mãos percorreram a terra vermelha e cada planta, cada pedaço de erva transformara-se numa nuvem vinda da Alma Grande para a amparar. Respirou fundo.

Voltaram à tribo para a cúpula da floresta Mahí.

Layah sorriu para a mãe e tentou descrever com a ponta do dedo indicador como é A Alma Grande.

No dia que segue a noite, Szal já tem pensado levar Layah até à Árvore Que Nunca Seca onde lhe vai explicar que a chuva não cai para sempre.

o_coracao_indio

3 responses to “O coração dos índios

  1. lindo.faz-me lembrar as vossas visitas a quinta pedagogica.
    ser pai e a melhor coisa do mundo.
    contigo estou reviver a minha felicidade.
    a quando os meus tambem eram crianças.
    feliz por ti.
    abraço

  2. Foi a primeira imagem que me surgiu ao ler atentamente este texto: a pequena princesa de olhos grandes a devorar cada palavra que o pai lhe conta. :)
    Os filhos são sempre nossos mesmo quando deixam o ninho.

  3. Imaginei as gotas, os raios de luz e um velho mundo que há-de ser novo outra vez. Fui índio novo e índio velho. Já merecíamos uma história nova amigo. Para aproxima não deixes passar tanto tempo, estas viagens astrais são importantes para mim. Não ficas tão longe. Sublime, como sempre amigo. Grande abraço.

Deixa o teu comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s