A estação

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As lágrimas não distinguem as estações, muito menos as pessoas.

– Ali está ele sentado à espera do comboio a olhar não sei para quê. Não pára de abrir e fechar a mala e tapa a boca para não deixar fugir o choro. É muito novo. Aposto que é uma fotografia bafienta com o seu pai a vestir um uniforme da Marinha que ostenta divisas: umas em estrela, outras em arco e distinções atribuidas a favores ou obrigações. Sei lá…

O comboio nunca mais chega.

Os minutos vão passando e o miúdo continua triste a contemplar o interior da mala e a estação, como se as linhas que dão caminho à composição fossem de porcelana.

Cigarro após cigarro, unha após unha, foram roendo a espera.

Um som.

E é mesmo, um vibrar longínquo, o chão treme e a linha a contrair-se em gritos estridentes e mecânicos como reacção ao peso do que chega e parte. O comboio pára.

– Oh! Não é o meu comboio. – É o momento certo para abanar a cabeça em sinal de reprovação – Podia ter visto bem o horário.  Bem, vou à bilheteira.

Entretanto o comboio parte.

O homem chega de novo à linha e procura ver se o rapaz subiu e partiu.

– Surpresa, o Senhor rapaz-que-chora-a-olhar-para-dentro-da-mala esqueceu-se da mesma junto ao banco. Deixa-me pensar. Já sei! Vou inspeccionar primeiro e depois logo se vê. Já sabes, pé ligeiro, passo a passo, senta-te no banco, cruza as pernas e olha rápido lá para dentro.

Um som.

E é mesmo, o vibrar repetitivo de quem chega e parte. Uma senhora de idade muito romântica que se encontrava do outro lado da linha, observa um homem a chorar, motivado por alguma coisa que encontrou dentro da mala e o comoveu até às lágrimas. Imagina que seja uma carta de amor endereçada pela sua amada que decidiu fugir para sempre a uma paixão impossível e volátil.

O comboio chega finalmente e fica entre um homem-curioso-que-chora-a-olhar-para-cartas-de-amor-dentro-da-mala e uma senhora de idade muito romântica.

Ele entrou e esqueceu-se da mala junto ao banco. A senhora não perdeu tempo e atravessou a linha ignorando as normas de segurança.

Abriu a mala.

Depois de ver a coisa por dentro percebeu e chorou. O seu comboio também chegou e partiu.

Eles choraram todos.

Nessa estação as malas nunca chegam a partir, só as pessoas.

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