O que é uma Micucuru? II

Texto dividido em 5 partes.

O Daniel adorava futebol. Passava as férias de Verão a rematar uma bola contra o portão de ferro da oficina do avô Carlos, abrigado do Sol por uma trepadeira que tornava o caminho de gravilha solta num túnel fresco e verde. Fazia pontaria a um Santo António em baixo relevo fundido no portão da oficina ou às lagartixas que se aventuravam em correrias. Gritava, golo!

No interior daquele anexo a rádio tocava. Carlos remendava barcos de fibra inalando colas e vernizes sem máscara. Esse perfume matava-o lentamente.

O som da bola parou. Não houve chocalhar de gravilha ou folhagem. Apenas o som da rádio. Carlos saiu ainda a enxugar as mãos lavadas. Foi à procura do neto. Encarou-o assim que abriu a porta lateral. O menino procurava algo no horizonte com as mãos na cintura arqueando os braços.

– Então, reguila? Não me digas que acordaste a Micucuru?

A confusão provocada pela pergunta fez Daniel caminhar em pezinhos de lã até ao avô murmurando-lhe em seguida:

– Avô, o que é uma Micucuru? – a franzir as sobrancelhas.

– Vem, vamos buscar a bola. Chutaste-a para a horta, não foi? Eu conto-te pelo caminho.

De mão dada com o avô, Daniel susteve a respiração o mais que pôde enquanto imaginava a Micucuru. Aguardou em silêncio com as palmas das mãos suadas, respirou por fim quando a resposta surgiu:

– A Micucuru adora comer abóboras. Aliás, só come frutas verduras bagas e um ou outro girassol. Ajuda as abelhas a saber onde está o melhor pólen para o fabrico do mel e trata a lã das ovelhas quando elas se tornam desmazeladas com a roupa. Acredites ou não, há um par de dias, a tua avó precisou de limões e, qual não foi o meu espanto, quando cheguei ao limoeiro, tinha cada limão pintalgado como se fossem ovinhos da Páscoa. Micucuru! Micucuru!, gritei. E na piscina? Quando ela decide tomar banho? Vem de noite banhar-se deixando na água as cores do arco-íris e algumas penas.

Daniel encontrou a bola junto das melancias. Examinou cada costura em busca de uma dentada. Nada. Olhou para o chão, para o ar, para a sola dos sapatos. Nada. Não abriu mais a boca para falar de Micucurus. Caminhou atento e ligeiro até a noite cair.

Na manhã seguinte acordou com o cão do avô Carlos a ladrar. Saltou da cama, correu desenfreadamente pelo corredor, desceu as escadas, calçou os chinelos junto ao tapete da entrada.

A porta da oficina pintada com as cores do arco-íris e nem o Santo António foi poupado. Pegadas no chão deixaram um rasto até à horta. Os girassóis tinham desaparecido.

O avô Carlos lia calmamente o jornal sentado no chão da horta com as costas apoiadas na nogueira centenária. Baixou o jornal por um breve instante:

– Eu disse, Daniel.

O menino abriu um sorriso aventureiro e desatou a correr com o cão pela horta, pelo trilho, pela margem do rio, pelo monte.

O avô Carlos ainda gritou:

– Não te esqueças do pequeno-almoço!

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